Complicado falar em função do romance: dar um sentido utilitário ou instrumental a um trabalho artístico é sempre muito arriscado.
De modo que se alguém disser “não leio romances porque eles não têm utilidade”, não estará 100% errado. O ponto, aqui, é que o foco, o eixo de compreensão está deslocado: ir ao romance para buscar utilidades imediatas é que está errado. Seria algo como ir ao restaurante em busca de nutrientes e não de experimentar uma boa refeição: “a comida aqui tem vitaminas e sais minerais, chef?”
Entende?
O (bom) romance é a boa refeição em matéria de leitura: decerto haverá muitos “nutrientes literários” ali, mas eles não estão sintetizados como numa cápsula. Estão sutis, incorporados, e seus benefícios não aparecem de imediato.
Ler romances faz diferença a longo prazo, mas de um modo interior e, portanto, subjetivo. Todas as outras leituras (as instrumentais, inclusive) melhoram por tabela quando combinadas com a leitura freqüente de bons romances.
Mas é possível apontar benefícios mais diretos, sim. O ritmo do texto do romance melhora a atenção e a concentração; a leitura de romances possibilita uma “visualização” do texto lido, e portanto, torna a experiência de leitura mais viva; além disso, amplia a empatia, a compreensão ao próximo; alarga nosso próprio horizonte de possibilidades, esmiuça preconceitos bobos e fáceis, questiona nossos próprios hábitos arraigados e atávicos, etc. etc. etc.
Então, não é que o romance não tenha utilidade. Ele tem tanta utilidade que não dá para listar todos de uma vez. É ler para saber.
Queremos e simulamos a singularidade, mas não passamos de um número. Sim, para o Grande Sistema, eu, tu, ele, todos nós somos uma senha, um código, uma combinação de signos que as burocracias diversas nos atribuem.
É duro para nós mesmos admitir que somos mais um. O mesmo sistema burguês que nos atribui senhas, números e códigos, é o mesmo que vende motivações convenientes para nos iludir a respeito de uma pretensa exclusividade para que continuemos a trabalhar, a consumir e a funcionar como bons cidadãos.
Mesmo os ricos e bem remediados. Uma vez na fila do aeroporto, a madame ou o doutor é cadastrado, etiquetado, tornado anônimo: passageiro número tal. Talvez com lugar vip na salinha do cartão de crédito black, talvez com direito a suquinho e ar-condicionado. Não deixa de ser algo ridículo: a única compensação do doutor e da madame é que os outros, aqueles ali fora, não podem estar aqui dentro. E esse é todo o prêmio disponível.
Corta para Pindorama. Aqui, nossa maravilhosa e fascinante não-sei-pra-quem democracia nos convoca a “votar” num daqueles escroques com que ela nos presenteia a cada biênio. Dali a pouco estaremos lá, levados pelo mais desprezível poder estatal, e apresentaremos um número de documento e colocaremos a digital num leitor que apontará para aquele mesmo número, e aí “votaremos” em números outros, o número dos escroques. A maravilhosa e fascinante não-sei-pra-quem democracia tenta nos convencer que o que ali fazemos é importante. O que ela não diz é que, conosco ou sem nosco, ela continuará mandando do jeito que quiser, impondo-se da forma que quiser, e os escroques da maquininha, aqueles votados, continuarão roubando, matando e destruindo. Feito o diabo.
Para o Grande Sistema, nossa existência é apenas tolerada, sob a contrapartida da sujeição compulsória. O lance é não dar muito na vista. O fato é que nossos nomes, o endereço de cada um, toda nossa existência é registrada como código de cadastro num banco de dados. E essa atribuição alfanumérica só aumenta e aumenta ad infinitum, e a cada novo código atribuído somos mais controlados e somos menos gente perante o Grande Sistema.
Agora imagine o homem da Idade Média, o mais humilde dos camponeses daquela época. Ele, sim, podia dizer “sou alguém”: tinha um Nome e um Sobrenome que identificavam respectivamente seu batismo e seu ofício. A carteira de identidade do camponês da Idade Média era o rosto, o caráter, a honradez, o bom nome de sua família. Ele, sim, era um indivíduo na acepção da palavra.
Não sem razão disseram os frankfurtianos que, na tal sociedade burguesa, não pode existir o indivíduo, isto é, o conceito acabado de indivíduo. Nessa eles acertaram como a burra de Balaão, pois, para o Grande Sistema, não há possibilidade de existirmos como pessoa triúna, corpo, alma e espírito. Há apenas criaturas classificadas sob a mão pesada da burocracia.
De modo que, para esse arauto do Anticristo chamado Grande Sistema, ninguém é nada além de um número. Quem sabe um brioso, altaneiro e pretensamente diferenciado número em relação a outro número, mas ainda assim, na mesma fila massificada. Próxima senha!
1. Simples assim: torto, cafajeste, no fundo do bem. Feio pra diabo. Beber e fumar, às vezes jogar. Falar palavrão, sem viadagem, gostar de gostosa. Mulher é feia ou gostosa, tesuda ou não tesuda. Nem nome tem; se tiver, é de guerra: Jussara, Paloma, Paulinha adolescente. Mulher: carne: comer ou jogar fora, ela não sente, não pensa. Mas fala e enche o saco, porra, me deixa em paz, tô “fudido” o suficiente; quer rola? Cafajeste que faz literatura na sarjeta. So-bre-vi-ven-te. Mal pisou em escola mas escreve: sensibilidade escondida (é enrustido?). Não, literatura “real”: verdade na lata e na cara, sem frescura, zero baitola. Manda a letra e mira a gostosa, enquanto fuma, enquanto bebe. Ou vice-versa.
2. Cara engraçado! Tá nem aí, homem nunca tá nem aí. Calmo: normal, gente da gente; en-gra-ça-do. Piada de tudo, a vida é gozada. Pô, (ele diz), pô, a vida não pode ser levada a sério. Tudo gozação, a vida é curta; quem não pensa assim, finge (simples assim). Cara-normal-que-goza-de-tudo, mais ainda do próprio fracasso. Descolar uma graninha no trabalho; pagar conta; sofrer contrariedades: fechada no trânsito, queixa de mulher. O buraco é mais embaixo. Valorizar o esculachado. Gostar de anti-herói. Beber no fim de semana. Assar uma carninha. Ah, antes foi melhor, mundo tá chato! Tipo: piada de preto. Que é que tem? Direita: polícia na rua, vagabundo na cadeia, melhor coisa do mundo. Não pagou a grana emprestada: roubo não, é diferente. Fezinha na lotérica. Feijoada no botequim. Domingo, futebol. Coisa de homem, pô: viver é isso. Humor-tiozão tempera a existência. Homem. Simples assim.
* * *
Mulher:
1. Primeira pessoa: EU! Minha cabeça, um caos, liquidificador. Ninguém me entende, nem eu me entendo: “uma dor sem nome”. A vida em função do que homem acha e de superar o que homem acha. Tem um homem olhando, outro falando de mim, outro me ignora. Xingar homem. Desprezar homem. Eles existem, eu sofro. Defesas: o recurso da ironia; o recurso do sarcasmo; o recurso da diminuição de importância. (Preciso transar. Preciso.) Eu me defino, ouviram? Eu supero, nem vem, não vou ser como querem que eu seja. Eu não ligo! (Mas por que homem é assim? – não paro de pensar.) A solidariedade coletiva: “nós, mulheres”. De esquerda: ele não! Corta pra realidade: aquela vaca!
2. Alguém doente. Sempre alguém doente. Cenário: hospital. Cenário: restaurante. Cenário: aeroporto. Cenário: apartamento. Coitada da minha mãe. Coitada da minha vó. Mulher sofre, mas eu não vou sofrer. Viagem ao redor do meu umbigo. Tudo parte de mim, tudo converge a mim. Coisa idiota, desimportante se homem acha importante. Cenário: consultório. Cenário: laboratório. Sou inteligente. Falo mal mesmo. (Dor sem nome.) Uma falta, uma ausência: chorei. Esqueci. Lembrei. Hoje acordei bem. Hoje acordei mal. Um passeio: algo acontece? Nada acontece. Só um passeio — e falar, bom falar. Adoro amigas. Eu sendo eu! Deprimir. Superar. O mundo me deve: tenho direito! Causa política, causa ética — porque eu penso. Problema de saúde. Xixi e cocô, dane-se, não sou princesa! Fim igual começo, começo igual fim, tudo igual. Minha cabeça, um caos, liquidificador. Primeira pessoa: EU!
Do que trato aqui, nada posso falar a respeito dos escritores de antigamente ou falecidos há pouco tempo. Todavia (meio fresco usar todavia), todavia, quanto aos escritores atuais e em plena atividade, os ditos contemporâneos, eu vejo sim cara e coração antes de ler.
É, admito o julgamento quem sabe temerário. Também não digo que eu esteja certo. Admito ainda que, prestes a me tornar um dos tais contemporâneos (publico logo mais minha tentativa de romance), eu mesmo poderei ser julgado pelo meu próprio critério.
Paciência, é do jogo. Não por acaso Nosso Senhor disse “com a medida com que tiveres medido, vos medirão também.” Por isso, o Cristo aconselhou a não julgar: dentre os muitos mistérios celestiais da sentença, um motivo era advertir para que não sucumbíssemos ante nosso próprio julgamento.
Mas enfim, é só literatura. Disse que vejo cara e coração do escritor, especialmente porque os meios digitais possibilitam isso. Antes, tínhamos as entrevistas nos jornais. Agora, por áudio e vídeo, é possível ver, ou na gíria, sacar o caboclo que se arvora a escrever. Sabe como é, estudar o cara. Então, para que eu o leia, preciso notar ali, sob esse meu exclusivo escrutínio, que vai ali um autor na acepção do termo.
Não leve a mal, já sofri um bocado por aparências enganosas, ainda mais nesse Brasil de tanto simulacro sem substância. A sociedade brasileira é movida pela imitação e por essa incômoda raspagem das superfícies. Ninguém aqui se preocupa em ser tanto quanto em parecer. Aliás, aqui o parecer é um atalho sempre à mão para objetivos mais imediatos. Ninguém tem paciência de ir aos pouquinhos. É de imediatos que o brasileiro comumente formado vive. Ninguém aqui aprecia muito o preparar-se, o planejar-se: entram pelos telhados e puf!, surgem na ribalta, põem a cara aos holofotes. Depois, surgem os tapinhas nas costas e os encontros bacanas. Assim, prático e rápido.
Sou meio cafona vai ver, mas creio numa certa reclusão do escritor, e também numa certa esquisitice em suas maneiras, aliás, coisa típica de quem realmente tem personalidade. Personalidade muito confundida no Brasil com exagero forçado, maneiras estudadas, todo um cálculo prévio dos trejeitos para causar sensação. De novo, tudo não passa da velha superficialidade, raspagem, aparência.
Não, não: o escritor verdadeiro será mais ou menos esquisito, mais ou menos deslocado, mais ou menos desajeitado para as recepções. E será tudo isso de modo espontâneo, e se incomodará em não fazer bom papel em meio às solenidades inescapáveis. Por isso, ele se afastará ao máximo da publicidade de sua própria figura.
De modo que eu preciso perceber tudo isso num autor: personalidade, espontaneidade criativa, idiossincrasia autêntica; tudo dialogando com alguma sabedoria de fundo. Quem se mostra assim, decerto terá algo a dizer. Vamos a seu livro.
Por outro lado, o sujeito que pariu um livrinho e sai logo a receber afagos; e, sobretudo, se coloca como “facilmente digerível” à opinião média, inclusive de quem lê nada, e que vive todo prosa, como se dizia antigamente; este eu aposto que não escreveu algo de valor. Marcou um tento, engordou o currículo; agora, busca aceitação e legitimidade.
Separar obra de autor, diz o conselho. Em parte está certo: separe-se contradições e idiossincrasias (insisto na palavra) do autor de sua obra pronta. Talvez nem precise: tais desvios servirão de tempero à refeição literária que o escritor preparou. Já pose e cabotinismo não tem quem me convença: se o escritor não me desce, o que ele escreveu — vá desculpar —, ainda menos.
Procuro pelas belas edições da obra de Cyro dos Anjos, publicadas pela Editora Globo, em 2006. Com muita sorte consegui o Abdias e o Amanuense Belmiro, mas faltam-me os demais títulos da obra do escritor mineiro, um de meus preferidos no território pindorâmico, e não os encontro.
Refiro-me a exemplares novinhos, da própria Globo. Antigo tem de monte. Quero os da coleção, pois, justiça seja feita, as reedições foram feitas com esmero, coisa que todo grande autor merece ter. Não são aqueles livretes de lista obrigatória de vestibular, pensados para ser baratinhos, em geral com diagramação sofrível e papel branco-quase-transparente.
Mas devo o ponto deste textinho. O ponto é que ‘cabou-se, ninguém acha mais as edições do Cyro pela Globo. Esgotou, sumiu.
Como esgotou, se livro não vende? — é de se perguntar. A única explicação possível há de ser esta: a de que livro não vende, mas livro vende, sim.
Pode parecer arrogância à primeira vista, mas descobri que preciso falar sozinho.
Na verdade, escrever é sempre um falar sozinho. Ocorre que a internet – sobretudo as redes sociais – é que nos acostumaram por décadas a imaginar que, abre aspas, dialogamos, fecha aspas, com alguém ou com a praça pública.
Não, nunca dialogamos ali. A rigor, não.
Se eu mesmo colocasse na balança tudo o que já disse em rede social ao longo desses anos, em que pese ter passado por várias fases mentais durante o período, não saberia precisar o volume de texto despejado ali, nem de que categoria, se boa ou ruim.
Claro, sejamos justos, muita (muita? exagero aqui), mas um número razoável de gente boa conheci ali, nas redes. Portanto, nenhuma crítica a elas em específico. Fiz alguns amigos e amigas, e do melhor modo, qual seja, por afinidade e confluência de interesses.
Mas eu precisava falar sozinho. Por isso ensaio essa volta tímida ao blog. Eu precisava do silêncio, do espaço e da sorte de ser encontrado por quem quer ler de verdade o que escrevo e se interessa pelo que tenho a dizer. O que é um privilégio para mim. Aqui, no blog, sinto-me livre para usar a primeira pessoa em tom intimista e confessional, sem parecer tão autorreferente nem ávido pelo aplauso.
De resto, o blog é como o livro. Claro, o meio é outro, eletrônico, digital; mas o princípio é bem parecido ao livro: lemos o que o autor pôs ali, e aquilo nos dá o que pensar. Por essa singela atitude, nossa compreensão vai se ampliando, nossos horizontes se alargam. E o melhor: sem caixinhas de comentários. O livro que nos fala é surdo e não comporta “interações”.
Claro, o blog não é tão rígido como o livro; pode-se comentar aqui e enviar um alô ao autor (mande um alô, se quiser; comente!). Porém, este ambiente mais privativo inspira um respeito maior, uma consideração diferente, um cuidado que na impessoalidade quicante das redes sociais simplesmente não acontece.
Como pretendente a escritor, eu poderia me oficializar mais, buscar contatos, virar instituição. Mas escritor não é monumento. Se assim fazem dele, é outra coisa. Na prática, escritor é o que escreve, em qualquer ocasião, se houver o que escrever.
Por isso volto ao blog — como dantes, muito dantes. Estou feliz por este retorno. De sorte que vou aos pouquinhos, e espero que tudo corra bem.