A independência cobra um preço alto. O preço cobrado pela independência consiste em implementar a convicção que a ensejou e da qual tantos duvidam (e até combatem). A independência é solitária, suspeita, evitada; mas tudo isso no início. Depois de estabelecida, porém, ela é como a copa de uma árvore frondosa, de tronco forte e bem enraizado: as aves gorjeiam por ali e constroem ninhos em seus ramos, em perfeita paz e segurança.
Vale a pena lutar pela independência até estabelecê-la na realidade concreta, até a promessa dar lugar à realização. Até lá, o caminho é arduo e pedregoso, mas, uma vez estabelecida, os frutos e todas as recompensas escorrem como o mel, naturalmente.
Algumas pouquíssimas pessoas estavam a par de que eu publicaria o meu romance de estréia, Francisco Maia, pela Editora Danúbio, de Curitiba. Publicaria: de fato, o futuro do pretérito indica que a publicação não ocorrerá mais. Ao menos não daquela maneira divulgada pela editora e também por mim.
Contratado precisamente no último dia de janeiro de 2025, o original esperou pela publicação durante um ano e quase oito meses. Há poucos dias, recebi o comunicado de que ele não seria publicado mais nesse ano de 2026. A provável publicação foi empurrada para o primeiro semestre de 2027, e essa previsão de resto bastante incerta não me agradou. Mas antes, bem antes disso, o teor do meu livro também parece não ter agradado a editora, depois de terem mergulhado no teor da obra (explico-a abaixo).
Diante dessas divergências editoriais, optamos de comum acordo, eu e a editora, a editora e eu, pelo cancelamento da publicação.
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Sabe, sou um homem simples. Não estou em grupinhos no WhatsApp, não sou o que se pode chamar de bem-relacionado. Se disserem que sou antipático, não sou, mas entendo que assim achem. De fato, não tenho “pares” para fofocar bastidores e maldizer, às gargalhadas, com toda a mordacidade. E nem quero: adoro essa minha condição solitária, adoro minha paz quem sabe misteriosa, adoro não precisar maldizer a ninguém. De resto, desde o início em que pus o ponto final em Francisco Maia, eu queria também diagramar meu próprio livro, elaborar a capa e fazer a produção gráfica dele. Fiquei louco? Não, não, calma: sou designer editorial desde fins do século passado. Sou profissional da área, e me desculpe, diria que dos bons. Passei por umas casas editoriais aqui e ali, dentre as quais a Coleções Folha, da sra. Folha de S. Paulo, entre os anos de 2018-23.
De modo que, com trinta anos de profissão nas costas e sempre servindo à sociedade neste ofício, quis ver o meu próprio livro com a minha cara “artística”, digamos assim. Claro, a partir do propósito reclamado pela obra e outras viabilidades correlatas. Porque, não sei se sabem, designer é basicamente um pau-mandado com qualificação técnica e, pfui, nível superior. É uma profissão basicamente prestadora de serviços destinada só a receber ordens. No mais das vezes e na maioria esmagadora das vezes, estúpidas ordens. O cliente é, em geral, tão burrinho quanto teimoso ou vice-versa. Mas a gente cala o defeito alheio e o fígado de aço vai agüentando, porque somos um tiquinho pagos para isso.
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Bem, sem queixumes. Voltemos ao livro. Em tempo oportuno, meus dois ou três leitores interessados (o meu muitíssimo obrigado a vocês, fabulosos dois ou três!), serão inteirados a respeito dessa publicação — a qual será ainda melhor preparada, posso garantir.
Permite uma pretensão? Vai parecer isso, mas prefiro chamar de sonho:
Quero que meu livro, nesta edição a ser lançada, torne-se “cult”: um volume do qual os felizardos que o tiverem possam dizer aos netos, “é, eu vi quando esse cara estreou, ele mesmo fez essa edição aqui; esse livro é raríssimo”, tal.
Isto para o caso miraculoso de, tempos depois do lançamento, ele ser contratado por uma editora de porte e renome. Porque eu creio que a cada dia a loucura ativista se dilui nessas casas importantes, e a literatura voltará a brilhar por ali. Queira Deus.
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Mas de que trata este Francisco Maia, afinal?
Antes, um aviso: é possível que o título mude um pouco. Não sei. Mas vamos lá: o livro é uma biografia ficcional desse personagem-título. Sua maior questão pessoal (todo grande personagem de ficção busca algo maior, certo?), bem, sua questão é realizar a sua vocação, sua missão de melhorar, influenciar, edificar desde dentro a sociedade em torno. Para isso, ele irá passar por árduo período de formação pessoal pelas mãos de um mestre renomado. Isso se passa entre os anos 1940-1960, em São Paulo. Depois, muitos anos depois, ele ressurge (como? leia!) e reaparece, de modo absolutamente improvável, no ano de 2011. Ele cai de paraquedas nas jornadas de 2013 (cujos efeitos se fazem sentir ainda hoje)!
No século 21, diante do choque dos costumes da sociedade em torno e da fragmentação das almas em geral, ele decide influenciar o rumo das coisas. É jogado nisso meio sem querer, um pouco como joguete de interesses suspeitos; e também por um pouco de reação e vingança pessoal, pois fizeram mal à sua família. Por fim, resta saber se ele conseguirá cumprir a sua missão de vida, e o que isso causará de efetivo nas pessoas em geral.
Com efeito, Francisco Maia (título não definitivo, repito), é um livro de média complexidade, diria. É um romance de personagens vívidos, muitos personagens, e estritamente narrativo. Não se trata de um livro com frases proverbiais ou edificantes ao imaginário (e essa foi uma das divergências editoriais acima citadas).
Se você já leu A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa, acho que gostará de Francisco Maia. Se você já leu Servidão Humana, de W. Somerset Maugham, acho que gostará de Francisco Maia. É um romance de algum fôlego para quem gosta de mergulhar em romances: se for o seu caso, o mergulho valerá a pena, eu garanto.