Um exercício joyceano
Homem:
1. Simples assim: torto, cafajeste, no fundo do bem. Feio pra diabo. Beber e fumar, às vezes jogar. Falar palavrão, sem viadagem, gostar de gostosa. Mulher é feia ou gostosa, tesuda ou não tesuda. Nem nome tem; se tiver, é de guerra: Jussara, Paloma, Paulinha adolescente. Mulher: carne: comer ou jogar fora, ela não sente, não pensa. Mas fala e enche o saco, porra, me deixa em paz, tô “fudido” o suficiente; quer rola? Cafajeste que faz literatura na sarjeta. So-bre-vi-ven-te. Mal pisou em escola mas escreve: sensibilidade escondida (é enrustido?). Não, literatura “real”: verdade na lata e na cara, sem frescura, zero baitola. Manda a letra e mira a gostosa, enquanto fuma, enquanto bebe. Ou vice-versa.
2. Cara engraçado! Tá nem aí, homem nunca tá nem aí. Calmo: normal, gente da gente; en-gra-ça-do. Piada de tudo, a vida é gozada. Pô, (ele diz), pô, a vida não pode ser levada a sério. Tudo gozação, a vida é curta; quem não pensa assim, finge (simples assim). Cara-normal-que-goza-de-tudo, mais ainda do próprio fracasso. Descolar uma graninha no trabalho; pagar conta; sofrer contrariedades: fechada no trânsito, queixa de mulher. O buraco é mais embaixo. Valorizar o esculachado. Gostar de anti-herói. Beber no fim de semana. Assar uma carninha. Ah, antes foi melhor, mundo tá chato! Tipo: piada de preto. Que é que tem? Direita: polícia na rua, vagabundo na cadeia, melhor coisa do mundo. Não pagou a grana emprestada: roubo não, é diferente. Fezinha na lotérica. Feijoada no botequim. Domingo, futebol. Coisa de homem, pô: viver é isso. Humor-tiozão tempera a existência. Homem. Simples assim.
* * *
Mulher:
1. Primeira pessoa: EU! Minha cabeça, um caos, liquidificador. Ninguém me entende, nem eu me entendo: “uma dor sem nome”. A vida em função do que homem acha e de superar o que homem acha. Tem um homem olhando, outro falando de mim, outro me ignora. Xingar homem. Desprezar homem. Eles existem, eu sofro. Defesas: o recurso da ironia; o recurso do sarcasmo; o recurso da diminuição de importância. (Preciso transar. Preciso.) Eu me defino, ouviram? Eu supero, nem vem, não vou ser como querem que eu seja. Eu não ligo! (Mas por que homem é assim? – não paro de pensar.) A solidariedade coletiva: “nós, mulheres”. De esquerda: ele não! Corta pra realidade: aquela vaca!
2. Alguém doente. Sempre alguém doente. Cenário: hospital. Cenário: restaurante. Cenário: aeroporto. Cenário: apartamento. Coitada da minha mãe. Coitada da minha vó. Mulher sofre, mas eu não vou sofrer. Viagem ao redor do meu umbigo. Tudo parte de mim, tudo converge a mim. Coisa idiota, desimportante se homem acha importante. Cenário: consultório. Cenário: laboratório. Sou inteligente. Falo mal mesmo. (Dor sem nome.) Uma falta, uma ausência: chorei. Esqueci. Lembrei. Hoje acordei bem. Hoje acordei mal. Um passeio: algo acontece? Nada acontece. Só um passeio — e falar, bom falar. Adoro amigas. Eu sendo eu! Deprimir. Superar. O mundo me deve: tenho direito! Causa política, causa ética — porque eu penso. Problema de saúde. Xixi e cocô, dane-se, não sou princesa! Fim igual começo, começo igual fim, tudo igual. Minha cabeça, um caos, liquidificador. Primeira pessoa: EU!
Trilha sonora: