Do que trato aqui, nada posso falar a respeito dos escritores de antigamente ou falecidos há pouco tempo. Todavia (meio fresco usar todavia), todavia, quanto aos escritores atuais e em plena atividade, os ditos contemporâneos, eu vejo sim cara e coração antes de ler.
É, admito o julgamento quem sabe temerário. Também não digo que eu esteja certo. Admito ainda que, prestes a me tornar um dos tais contemporâneos (publico logo mais minha tentativa de romance), eu mesmo poderei ser julgado pelo meu próprio critério.
Paciência, é do jogo. Não por acaso Nosso Senhor disse “com a medida com que tiveres medido, vos medirão também.” Por isso, o Cristo aconselhou a não julgar: dentre os muitos mistérios celestiais da sentença, um motivo era advertir para que não sucumbíssemos ante nosso próprio julgamento.
Mas enfim, é só literatura. Disse que vejo cara e coração do escritor, especialmente porque os meios digitais possibilitam isso. Antes, tínhamos as entrevistas nos jornais. Agora, por áudio e vídeo, é possível ver, ou na gíria, sacar o caboclo que se arvora a escrever. Sabe como é, estudar o cara. Então, para que eu o leia, preciso notar ali, sob esse meu exclusivo escrutínio, que vai ali um autor na acepção do termo.
Não leve a mal, já sofri um bocado por aparências enganosas, ainda mais nesse Brasil de tanto simulacro sem substância. A sociedade brasileira é movida pela imitação e por essa incômoda raspagem das superfícies. Ninguém aqui se preocupa em ser tanto quanto em parecer. Aliás, aqui o parecer é um atalho sempre à mão para objetivos mais imediatos. Ninguém tem paciência de ir aos pouquinhos. É de imediatos que o brasileiro comumente formado vive. Ninguém aqui aprecia muito o preparar-se, o planejar-se: entram pelos telhados e puf!, surgem na ribalta, põem a cara aos holofotes. Depois, surgem os tapinhas nas costas e os encontros bacanas. Assim, prático e rápido.
Sou meio cafona vai ver, mas creio numa certa reclusão do escritor, e também numa certa esquisitice em suas maneiras, aliás, coisa típica de quem realmente tem personalidade. Personalidade muito confundida no Brasil com exagero forçado, maneiras estudadas, todo um cálculo prévio dos trejeitos para causar sensação. De novo, tudo não passa da velha superficialidade, raspagem, aparência.
Não, não: o escritor verdadeiro será mais ou menos esquisito, mais ou menos deslocado, mais ou menos desajeitado para as recepções. E será tudo isso de modo espontâneo, e se incomodará em não fazer bom papel em meio às solenidades inescapáveis. Por isso, ele se afastará ao máximo da publicidade de sua própria figura.
De modo que eu preciso perceber tudo isso num autor: personalidade, espontaneidade criativa, idiossincrasia autêntica; tudo dialogando com alguma sabedoria de fundo. Quem se mostra assim, decerto terá algo a dizer. Vamos a seu livro.
Por outro lado, o sujeito que pariu um livrinho e sai logo a receber afagos; e, sobretudo, se coloca como “facilmente digerível” à opinião média, inclusive de quem lê nada, e que vive todo prosa, como se dizia antigamente; este eu aposto que não escreveu algo de valor. Marcou um tento, engordou o currículo; agora, busca aceitação e legitimidade.
Separar obra de autor, diz o conselho. Em parte está certo: separe-se contradições e idiossincrasias (insisto na palavra) do autor de sua obra pronta. Talvez nem precise: tais desvios servirão de tempero à refeição literária que o escritor preparou. Já pose e cabotinismo não tem quem me convença: se o escritor não me desce, o que ele escreveu — vá desculpar —, ainda menos.
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