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13/08/2026

Somos um número

Queremos e simulamos a singularidade, mas não passamos de um número. Sim, para o Grande Sistema, eu, tu, ele, todos nós somos uma senha, um código, uma combinação de signos que as burocracias diversas nos atribuem.

É duro para nós mesmos admitir que somos mais um. O mesmo sistema burguês que nos atribui senhas, números e códigos, é o mesmo que vende motivações convenientes para nos iludir a respeito de uma pretensa exclusividade para que continuemos a trabalhar, a consumir e a funcionar como bons cidadãos.

Mesmo os ricos e bem remediados. Uma vez na fila do aeroporto, a madame ou o doutor é cadastrado, etiquetado, tornado anônimo: passageiro número tal. Talvez com lugar vip na salinha do cartão de crédito black, talvez com direito a suquinho e ar-condicionado. Não deixa de ser algo ridículo: a única compensação do doutor e da madame é que os outros, aqueles ali fora, não podem estar aqui dentro. E esse é todo o prêmio disponível.

Corta para Pindorama. Aqui, nossa maravilhosa e fascinante não-sei-pra-quem democracia nos convoca a “votar” num daqueles escroques com que ela nos presenteia a cada biênio. Dali a pouco estaremos lá, levados pelo mais desprezível poder estatal, e apresentaremos um número de documento e colocaremos a digital num leitor que apontará para aquele mesmo número, e aí “votaremos” em números outros, o número dos escroques. A maravilhosa e fascinante não-sei-pra-quem democracia tenta nos convencer que o que ali fazemos é importante. O que ela não diz é que, conosco ou sem nosco, ela continuará mandando do jeito que quiser, impondo-se da forma que quiser, e os escroques da maquininha, aqueles votados, continuarão roubando, matando e destruindo. Feito o diabo.

Para o Grande Sistema, nossa existência é apenas tolerada, sob a contrapartida da sujeição compulsória. O lance é não dar muito na vista. O fato é que nossos nomes, o endereço de cada um, toda nossa existência é registrada como código de cadastro num banco de dados. E essa atribuição alfanumérica só aumenta e aumenta ad infinitum, e a cada novo código atribuído somos mais controlados e somos menos gente perante o Grande Sistema.

Agora imagine o homem da Idade Média, o mais humilde dos camponeses daquela época. Ele, sim, podia dizer “sou alguém”: tinha um Nome e um Sobrenome que identificavam respectivamente seu batismo e seu ofício. A carteira de identidade do camponês da Idade Média era o rosto, o caráter, a honradez, o bom nome de sua família. Ele, sim, era um indivíduo na acepção da palavra.

Não sem razão disseram os frankfurtianos que, na tal sociedade burguesa, não pode existir o indivíduo, isto é, o conceito acabado de indivíduo. Nessa eles acertaram como a burra de Balaão, pois, para o Grande Sistema, não há possibilidade de existirmos como pessoa triúna, corpo, alma e espírito. Há apenas criaturas classificadas sob a mão pesada da burocracia.

De modo que, para esse arauto do Anticristo chamado Grande Sistema, ninguém é nada além de um número. Quem sabe um brioso, altaneiro e pretensamente diferenciado número em relação a outro número, mas ainda assim, na mesma fila massificada. Próxima senha!


Trilha sonora:

11/08/2026

O fim é o meio

Sem oficialidade, não há efetividade; sem efetividade, não há oficialidade.

06/08/2026

A volta, ou: falar sozinho

Pode parecer arrogância à primeira vista, mas descobri que preciso falar sozinho.

Na verdade, escrever é sempre um falar sozinho. Ocorre que a internet – sobretudo as redes sociais – é que nos acostumaram por décadas a imaginar que, abre aspas, dialogamos, fecha aspas, com alguém ou com a praça pública.

Não, nunca dialogamos ali. A rigor, não.

Se eu mesmo colocasse na balança tudo o que já disse em rede social ao longo desses anos, em que pese ter passado por várias fases mentais durante o período, não saberia precisar o volume de texto despejado ali, nem de que categoria, se boa ou ruim.

Claro, sejamos justos, muita (muita? exagero aqui), mas um número razoável de gente boa conheci ali, nas redes. Portanto, nenhuma crítica a elas em específico. Fiz alguns amigos e amigas, e do melhor modo, qual seja, por afinidade e confluência de interesses.

Mas eu precisava falar sozinho. Por isso ensaio essa volta tímida ao blog. Eu precisava do silêncio, do espaço e da sorte de ser encontrado por quem quer ler de verdade o que escrevo e se interessa pelo que tenho a dizer. O que é um privilégio para mim. Aqui, no blog, sinto-me livre para usar a primeira pessoa em tom intimista e confessional, sem parecer tão autorreferente nem ávido pelo aplauso.

De resto, o blog é como o livro. Claro, o meio é outro, eletrônico, digital; mas o princípio é bem parecido ao livro: lemos o que o autor pôs ali, e aquilo nos dá o que pensar. Por essa singela atitude, nossa compreensão vai se ampliando, nossos horizontes se alargam. E o melhor: sem caixinhas de comentários. O livro que nos fala é surdo e não comporta “interações”.

Claro, o blog não é tão rígido como o livro; pode-se comentar aqui e enviar um alô ao autor (mande um alô, se quiser; comente!). Porém, este ambiente mais privativo inspira um respeito maior, uma consideração diferente, um cuidado que na impessoalidade quicante das redes sociais simplesmente não acontece.

Como pretendente a escritor, eu poderia me oficializar mais, buscar contatos, virar instituição. Mas escritor não é monumento. Se assim fazem dele, é outra coisa. Na prática, escritor é o que escreve, em qualquer ocasião, se houver o que escrever.

Por isso volto ao blog — como dantes, muito dantes. Estou feliz por este retorno. De sorte que vou aos pouquinhos, e espero que tudo corra bem.


Trilha sonora: