Suponhamos, se a mãe falar ao filho de seis anos: “coma banana, meu filho; banana faz bem”, e no dia seguinte o filho falar à mãe, “coma banana, mamãe; banana faz bem”, ambos não dizem a mesma coisa.
Estão falando, sim, mas não dizendo a mesma coisa.
Com toda a evidência, a mãe diz a frase porque ela sabe, com base em seu aprendizado e experiência de vida, e sob conhecimentos nutricionais ainda que superficiais, que comer banana faz bem ao organismo. Isto significa que o que ela transmite ao filho tem um peso que ultrapassa as meras palavras, os sons da fala. Logo, aquilo tem autoridade: o saber, a experiência, o conhecimento efetivo da mãe, ainda que num nível mínimo, ultrapassa essa mesma capacidade no filho.
Já quando o menino de seis anos fala à mãe a mesmíssima frase, isso se baseia primeiro na repetição dos sons escutados, e depois na entonação aprendida à própria mãe. Nada mais que isso.
No entanto, é óbvio que o menino não sabe, não tem a posse do conhecimento nutricional, ainda que empírico, que a mãe tem. O garotinho não faz qualquer idéia dos benefícios da ingestão de bananas. Mas ele é capaz de falar a frase em si, pode repetir aquele som organizado. No máximo ele sabe que a fala memorizada refere-se a uma fruta de nome banana que ele já conhece. Mas o teor da mensagem é vazio, um som emitido por mera imitação.
Quando alguém afirma ou nega algo, é preciso medir e considerar de alguma maneira o peso, a substância daquela mensagem no emissor. Que peso tem aquelas palavras? Aquela pessoa sabe minimamente o que está dizendo? Ou apenas repete porque ouviu de alguém que ouviu de alguém e mais alguém, indefinidamente?
Em geral, as opiniões são assim. A pessoa ouviu e repassou como se fosse sua qualquer coisa que lhe caiu aos ouvidos, sabe-se lá de onde. Isso se dá especialmente quando a pessoa reage a algo que chega agora ao seu conhecimento e se sente imediatamente contrariada (o que acontece muito em comentários de rede social): ela desconhece o trajeto mental e/ou referencial do emissor (se é que há; seria a mãe do exemplo acima), e sente um desconforto, algum incômodo no consenso assentado até ali. Daí, reage, repetindo jargões e cacoetes, por puro gatilho mental.
Isso, entretanto, não é pensar. É rebater uma proposição com base em frases aprendidas, sentenças soltas, sem repertório adequado nem reflexão por tempo suficiente.
Discordar de um argumento implica em ter argumentos melhores, mais acertados e embasados, o que sem dúvida dá um certo trabalho. Já slogans e sarcasmos e cacoetes conferem sentimentos convenientes e protetivos, além de restabelecerem no devido cantinho do cérebro o “pensamento-pensado” recebido de terceiros.
Todos temos essa espécie de baú mental de opiniões instantâneas, defesas prontas contra certas “provocações”, mas que não consistem num argumento genuíno. É o filho repetindo a frase da banana sem saber o mínimo do que ela significa de fato.
Coisa de criança, portanto.
Trilha sonora:
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