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20/08/2026

Coisa de criança

Suponhamos, se a mãe falar ao filho de seis anos: “coma banana, meu filho; banana faz bem”, e no dia seguinte o filho falar à mãe, “coma banana, mamãe; banana faz bem”, ambos não dizem a mesma coisa.

Estão falando, sim, mas não dizendo a mesma coisa.

Com toda a evidência, a mãe diz a frase porque ela sabe, com base em seu aprendizado e experiência de vida, e sob conhecimentos nutricionais ainda que superficiais, que comer banana faz bem ao organismo. Isto significa que o que ela transmite ao filho tem um peso que ultrapassa as meras palavras, os sons da fala. Logo, aquilo tem autoridade: o saber, a experiência, o conhecimento efetivo da mãe, ainda que num nível mínimo, ultrapassa essa mesma capacidade no filho.

Já quando o menino de seis anos fala à mãe a mesmíssima frase, isso se baseia primeiro na repetição dos sons escutados, e depois na entonação aprendida à própria mãe. Nada mais que isso.

No entanto, é óbvio que o menino não sabe, não tem a posse do conhecimento nutricional, ainda que empírico, que a mãe tem. O garotinho não faz qualquer idéia dos benefícios da ingestão de bananas. Mas ele é capaz de falar a frase em si, pode repetir aquele som organizado. No máximo ele sabe que a fala memorizada refere-se a uma fruta de nome banana que ele já conhece. Mas o teor da mensagem é vazio, um som emitido por mera imitação.

Quando alguém afirma ou nega algo, é preciso medir e considerar de alguma maneira o peso, a substância daquela mensagem no emissor. Que peso tem aquelas palavras? Aquela pessoa sabe minimamente o que está dizendo? Ou apenas repete porque ouviu de alguém que ouviu de alguém e mais alguém, indefinidamente?

Em geral, as opiniões são assim. A pessoa ouviu e repassou como se fosse sua qualquer coisa que lhe caiu aos ouvidos, sabe-se lá de onde. Isso se dá especialmente quando a pessoa reage a algo que chega agora ao seu conhecimento e se sente imediatamente contrariada (o que acontece muito em comentários de rede social): ela desconhece o trajeto mental e/ou referencial do emissor (se é que há; seria a mãe do exemplo acima), e sente um desconforto, algum incômodo no consenso assentado até ali. Daí, reage, repetindo jargões e cacoetes, por puro gatilho mental.

Isso, entretanto, não é pensar. É rebater uma proposição com base em frases aprendidas, sentenças soltas, sem repertório adequado nem reflexão por tempo suficiente.

Discordar de um argumento implica em ter argumentos melhores, mais acertados e embasados, o que sem dúvida dá um certo trabalho. Já slogans e sarcasmos e cacoetes conferem sentimentos convenientes e protetivos, além de restabelecerem no devido cantinho do cérebro o “pensamento-pensado” recebido de terceiros.

Todos temos essa espécie de baú mental de opiniões instantâneas, defesas prontas contra certas “provocações”, mas que não consistem num argumento genuíno. É o filho repetindo a frase da banana sem saber o mínimo do que ela significa de fato.

Coisa de criança, portanto.


Trilha sonora:

06/08/2026

A volta, ou: falar sozinho

Pode parecer arrogância à primeira vista, mas descobri que preciso falar sozinho.

Na verdade, escrever é sempre um falar sozinho. Ocorre que a internet – sobretudo as redes sociais – é que nos acostumaram por décadas a imaginar que, abre aspas, dialogamos, fecha aspas, com alguém ou com a praça pública.

Não, nunca dialogamos ali. A rigor, não.

Se eu mesmo colocasse na balança tudo o que já disse em rede social ao longo desses anos, em que pese ter passado por várias fases mentais durante o período, não saberia precisar o volume de texto despejado ali, nem de que categoria, se boa ou ruim.

Claro, sejamos justos, muita (muita? exagero aqui), mas um número razoável de gente boa conheci ali, nas redes. Portanto, nenhuma crítica a elas em específico. Fiz alguns amigos e amigas, e do melhor modo, qual seja, por afinidade e confluência de interesses.

Mas eu precisava falar sozinho. Por isso ensaio essa volta tímida ao blog. Eu precisava do silêncio, do espaço e da sorte de ser encontrado por quem quer ler de verdade o que escrevo e se interessa pelo que tenho a dizer. O que é um privilégio para mim. Aqui, no blog, sinto-me livre para usar a primeira pessoa em tom intimista e confessional, sem parecer tão autorreferente nem ávido pelo aplauso.

De resto, o blog é como o livro. Claro, o meio é outro, eletrônico, digital; mas o princípio é bem parecido ao livro: lemos o que o autor pôs ali, e aquilo nos dá o que pensar. Por essa singela atitude, nossa compreensão vai se ampliando, nossos horizontes se alargam. E o melhor: sem caixinhas de comentários. O livro que nos fala é surdo e não comporta “interações”.

Claro, o blog não é tão rígido como o livro; pode-se comentar aqui e enviar um alô ao autor (mande um alô, se quiser; comente!). Porém, este ambiente mais privativo inspira um respeito maior, uma consideração diferente, um cuidado que na impessoalidade quicante das redes sociais simplesmente não acontece.

Como pretendente a escritor, eu poderia me oficializar mais, buscar contatos, virar instituição. Mas escritor não é monumento. Se assim fazem dele, é outra coisa. Na prática, escritor é o que escreve, em qualquer ocasião, se houver o que escrever.

Por isso volto ao blog — como dantes, muito dantes. Estou feliz por este retorno. De sorte que vou aos pouquinhos, e espero que tudo corra bem.


Trilha sonora: