22/09/2026

Portas

Não sabias?

As portas nunca estiveram fechadas: só não foram abertas a ti. Pensavas que se abririam um dia, porque tens sutilezas e nuances, e és talentoso. Oh! Pensavas ser a flor que nasce da lama, mas não sabias que a lama é morta, podre, infértil... ao menos para ti.

Nuances... supõe ter delicadezas não captadas, mas a nuance, quando muita, é banal. Rejeito-te sim, porque calculo em ti uma banalidade perigosa ou uma perigosa banalidade. Ou nada. Simplesmente nada.

Há mais que fazer, digo-te sempre, mas meu fazer é fazer nada, um grande fazer nada com a intransigência do “não me incomodes”.

És gentil? Ignoro-te. És veraz? Acuso-te. Não escaparás de minhas negativas. Correto nunca estarás, pois não te darei o gosto.

Mas vence, e te olharei! Como vencer?, indagas. Sei, mas não direi: vincular-me-ia se teu nome desse um bom emblema ou associação benévola. Mas tenho-te por cavalo errado e não aposto em ti.

Aprovei outros, sim! Endossei outros, e foram decepção! Logo, tu pagarás por aquelas decepções, pois deles não posso cobrar, tenho vínculos; quanto a ti, posso boicotar-te e ver-te a rodopiar em desespero — o desespero dos que tentam e tentam e tentam. Que alguém pague por minhas decepções, e que sejas tu, inofensivo: usar-te-ei para tal fim.

Nuances? Sutilezas? Tens um “olhar”?

Sim, qualidades... que fazem minha delícia ao rejeitar-te. Que tornam mais implacável o meu “não”.

Contudo, não corte ainda tuas esperanças: mantenha-as bem aí, porque tua ilusão é cômica, faz-me rir em secreto até doer-me a barriga. Tente, parvo, tente! És ridículo em tua crença esperançosa, és patético em tua insistência cordata!

Fechei-te a porta há muito, e não sabias. E abro agora o postigo para te olhar de longe e dedicar-te melhor o meu enorme desdém. Talvez alcances; quem sabe um dia? Morto e frio, quem sabe?

Porque saiba, a morte é a maior das nuances, a única que em ti me faria aceitá-lo. Como a John Kennedy Toole.


Trilha sonora:

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