13/08/2026

A “utilidade” do romance

Complicado falar em função do romance: dar um sentido utilitário ou instrumental a um trabalho artístico é sempre muito arriscado.

De modo que se alguém disser “não leio romances porque eles não têm utilidade”, não estará 100% errado. O ponto, aqui, é que o foco, o eixo de compreensão está deslocado: ir ao romance para buscar utilidades imediatas é que está errado. Seria algo como ir ao restaurante em busca de nutrientes e não de experimentar uma boa refeição: “a comida aqui tem vitaminas e sais minerais, chef?”

Entende?

O (bom) romance é a boa refeição em matéria de leitura: decerto haverá muitos “nutrientes literários” ali, mas eles não estão sintetizados como numa cápsula. Estão sutis, incorporados, e seus benefícios não aparecem de imediato.

Ler romances faz diferença a longo prazo, mas de um modo interior e, portanto, subjetivo. Todas as outras leituras (as instrumentais, inclusive) melhoram por tabela quando combinadas com a leitura freqüente de bons romances.

Mas é possível apontar benefícios mais diretos, sim. O ritmo do texto do romance melhora a atenção e a concentração; a leitura de romances possibilita uma “visualização” do texto lido, e portanto, torna a experiência de leitura mais viva; além disso, amplia a empatia, a compreensão ao próximo; alarga nosso próprio horizonte de possibilidades, esmiuça preconceitos bobos e fáceis, questiona nossos próprios hábitos arraigados e atávicos, etc. etc. etc.

Então, não é que o romance não tenha utilidade. Ele tem tanta utilidade que não dá para listar todos de uma vez. É ler para saber.

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