As portas nunca estiveram fechadas: só não foram abertas a ti. Pensavas que se abririam um dia, porque tens sutilezas e nuances, e és talentoso. Oh! Pensavas ser a flor que nasce da lama, mas não sabias que a lama é morta, podre, infértil... ao menos para ti.
Nuances... supõe ter delicadezas não captadas, mas a nuance, quando muita, é banal. Rejeito-te sim, porque calculo em ti uma banalidade perigosa ou uma perigosa banalidade. Ou nada. Simplesmente nada.
Há mais que fazer, digo-te sempre, mas meu fazer é fazer nada, um grande fazer nada com a intransigência do “não me incomodes”.
És gentil? Ignoro-te. És veraz? Acuso-te. Não escaparás de minhas negativas. Correto nunca estarás, pois não te darei o gosto.
Mas vence, e te olharei! Como vencer?, indagas. Sei, mas não direi: vincular-me-ia se teu nome desse um bom emblema ou associação benévola. Mas tenho-te por cavalo errado e não aposto em ti.
Aprovei outros, sim! Endossei outros, e foram decepção! Logo, tu pagarás por aquelas decepções, pois deles não posso cobrar, tenho vínculos; quanto a ti, posso boicotar-te e ver-te a rodopiar em desespero — o desespero dos que tentam e tentam e tentam. Que alguém pague por minhas decepções, e que sejas tu, inofensivo: usar-te-ei para tal fim.
Nuances? Sutilezas? Tens um “olhar”?
Sim, qualidades... que fazem minha delícia ao rejeitar-te. Que tornam mais implacável o meu “não”.
Contudo, não corte ainda tuas esperanças: mantenha-as bem aí, porque tua ilusão é cômica, faz-me rir em secreto até doer-me a barriga. Tente, parvo, tente! És ridículo em tua crença esperançosa, és patético em tua insistência cordata!
Fechei-te a porta há muito, e não sabias. E abro agora o postigo para te olhar de longe e dedicar-te melhor o meu enorme desdém. Talvez alcances; quem sabe um dia? Morto e frio, quem sabe?
Porque saiba, a morte é a maior das nuances, a única que em ti me faria aceitá-lo. Como a John Kennedy Toole.
A independência cobra um preço alto. O preço cobrado pela independência consiste em implementar a convicção que a ensejou e da qual tantos duvidam (e até combatem). A independência é solitária, suspeita, evitada; mas tudo isso no início. Depois de estabelecida, porém, ela é como a copa de uma árvore frondosa, de tronco forte e bem enraizado: as aves gorjeiam por ali e constroem ninhos em seus ramos, em perfeita paz e segurança.
Vale a pena lutar pela independência até estabelecê-la na realidade concreta, até a promessa dar lugar à realização. Até lá, o caminho é arduo e pedregoso, mas, uma vez estabelecida, os frutos e todas as recompensas escorrem como o mel, naturalmente.
Algumas pouquíssimas pessoas estavam a par de que eu publicaria o meu romance de estréia, Francisco Maia, pela Editora Danúbio, de Curitiba. Publicaria: de fato, o futuro do pretérito indica que a publicação não ocorrerá mais. Ao menos não daquela maneira divulgada pela editora e também por mim.
Contratado precisamente no último dia de janeiro de 2025, o original esperou pela publicação durante um ano e quase oito meses. Há poucos dias, recebi o comunicado de que ele não seria publicado mais nesse ano de 2026. A provável publicação foi empurrada para o primeiro semestre de 2027, e essa previsão de resto bastante incerta não me agradou. Mas antes, bem antes disso, o teor do meu livro também parece não ter agradado a editora, depois de terem mergulhado no teor da obra (explico-a abaixo).
Diante dessas divergências editoriais, optamos de comum acordo, eu e a editora, a editora e eu, pelo cancelamento da publicação.
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Sabe, sou um homem simples. Não estou em grupinhos no WhatsApp, não sou o que se pode chamar de bem-relacionado. Se disserem que sou antipático, não sou, mas entendo que assim achem. De fato, não tenho “pares” para fofocar bastidores e maldizer, às gargalhadas, com toda a mordacidade. E nem quero: adoro essa minha condição solitária, adoro minha paz quem sabe misteriosa, adoro não precisar maldizer a ninguém. De resto, desde o início em que pus o ponto final em Francisco Maia, eu queria também diagramar meu próprio livro, elaborar a capa e fazer a produção gráfica dele. Fiquei louco? Não, não, calma: sou designer editorial desde fins do século passado. Sou profissional da área, e me desculpe, diria que dos bons. Passei por umas casas editoriais aqui e ali, dentre as quais a Coleções Folha, da sra. Folha de S. Paulo, entre os anos de 2018-23.
De modo que, com trinta anos de profissão nas costas e sempre servindo à sociedade neste ofício, quis ver o meu próprio livro com a minha cara “artística”, digamos assim. Claro, a partir do propósito reclamado pela obra e outras viabilidades correlatas. Porque, não sei se sabem, designer é basicamente um pau-mandado com qualificação técnica e, pfui, nível superior. É uma profissão basicamente prestadora de serviços destinada só a receber ordens. No mais das vezes e na maioria esmagadora das vezes, estúpidas ordens. O cliente é, em geral, tão burrinho quanto teimoso ou vice-versa. Mas a gente cala o defeito alheio e o fígado de aço vai agüentando, porque somos um tiquinho pagos para isso.
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Bem, sem queixumes. Voltemos ao livro. Em tempo oportuno, meus dois ou três leitores interessados (o meu muitíssimo obrigado a vocês, fabulosos dois ou três!), serão inteirados a respeito dessa publicação — a qual será ainda melhor preparada, posso garantir.
Permite uma pretensão? Vai parecer isso, mas prefiro chamar de sonho:
Quero que meu livro, nesta edição a ser lançada, torne-se “cult”: um volume do qual os felizardos que o tiverem possam dizer aos netos, “é, eu vi quando esse cara estreou, ele mesmo fez essa edição aqui; esse livro é raríssimo”, tal.
Isto para o caso miraculoso de, tempos depois do lançamento, ele ser contratado por uma editora de porte e renome. Porque eu creio que a cada dia a loucura ativista se dilui nessas casas importantes, e a literatura voltará a brilhar por ali. Queira Deus.
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Mas de que trata este Francisco Maia, afinal?
Antes, um aviso: é possível que o título mude um pouco. Não sei. Mas vamos lá: o livro é uma biografia ficcional desse personagem-título. Sua maior questão pessoal (todo grande personagem de ficção busca algo maior, certo?), bem, sua questão é realizar a sua vocação, sua missão de melhorar, influenciar, edificar desde dentro a sociedade em torno. Para isso, ele irá passar por árduo período de formação pessoal pelas mãos de um mestre renomado. Isso se passa entre os anos 1940-1960, em São Paulo. Depois, muitos anos depois, ele ressurge (como? leia!) e reaparece, de modo absolutamente improvável, no ano de 2011. Ele cai de paraquedas nas jornadas de 2013 (cujos efeitos se fazem sentir ainda hoje)!
No século 21, diante do choque dos costumes da sociedade em torno e da fragmentação das almas em geral, ele decide influenciar o rumo das coisas. É jogado nisso meio sem querer, um pouco como joguete de interesses suspeitos; e também por um pouco de reação e vingança pessoal, pois fizeram mal à sua família. Por fim, resta saber se ele conseguirá cumprir a sua missão de vida, e o que isso causará de efetivo nas pessoas em geral.
Com efeito, Francisco Maia (título não definitivo, repito), é um livro de média complexidade, diria. É um romance de personagens vívidos, muitos personagens, e estritamente narrativo. Não se trata de um livro com frases proverbiais ou edificantes ao imaginário (e essa foi uma das divergências editoriais acima citadas).
Se você já leu A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa, acho que gostará de Francisco Maia. Se você já leu Servidão Humana, de W. Somerset Maugham, acho que gostará de Francisco Maia. É um romance de algum fôlego para quem gosta de mergulhar em romances: se for o seu caso, o mergulho valerá a pena, eu garanto.
Que vão à merda, em fila indiana e sem dar tchau, os criticastros de Renato Russo. Que se fodam, saltitantes e contentes, os que se acham especial por difamá-lo. São burros satisfeitos sem remédio.
Sim, e digo isso sereno, porque não há letra de Renato Russo que não cale uma realidade bem patente na existência do (outrora) jovem, e que agora, tiozão, está às voltas com os compromissos da pequeno-burguesia: filhos, mulher, trabalho, contas, o mundo sem sentido — e uma culturinha de escape que suporte isso tudo.
Vira e mexe lembro de alguns versos de Renato Russo, do nada. Há sentido até demais em versos como “não falo como você fala/ mas vejo bem o que você me diz.” Ou a incontornável “esse é o nosso mundo/ o que é demais nunca é o bastante/ e a primeira vez é sempre a última chance/ ninguém vê onde chegamos/ os assassinos estão livres/ nós não estamos”. Isso é pura verdade e pura poesia. Se não for, não quero saber de poesia.
Não lhe soa clássico o suficiente, ó Doutor Cuequinha? Tome sua cultura e enfie em bom lugar: Renato também mostrou que leu e foi lido, ao dar às massas São Paulo e Camões em Monte Castelo. “O amor é fogo que arde sem se ver/ é ferida que dói e não se sente/ é um contentamento descontente/ é dor que desatina sem doer”, para emendar com o paulino “ainda que eu falasse a língua dos homens/ e falasse a língua dos anjos/ sem amor/ eu nada seria”.
Os exemplos são inúmeros. Renato Russo foi o barroco extemporâneo, trovador e menestrel. Foi pop, sim, e os que se querem acima do pop — estando porém abaixo — inventam defeitos para não reconhecer-lhe as qualidades. Uns merdas, uns bostinhas. Fodam-se eles.
Renato disse com acerto “temos nosso próprio tempo”, e ele foi, sim, um grande do meu próprio tempo. E não foi “personagem”, foi “gente de verdade”.
É o que mais tem faltado, dentre tudo que falta nestes dias: artista de verdade e gente de verdade.
Jamais tinha lido livro tão difícil, denso e profundo — e não vai aqui qualquer banalidade nesse “profundo” — do que O Sublime Romântico: Estudos sobre a Estrutura e Psicologia da Transcendência, do americano Thomas Weiskel, na tradução de Patrícia Flores da Cunha (Imago Editora, 1994). A edição original foi publicada em 1976.
De que trata o livro, em rapidíssimas palavras: da noção do Sublime a partir do Romantismo. O autor se debruça de maneira filosófica sobre o espírito e o “motor”, por assim dizer, da produção literária da época. O mais espantoso é que Weiskel investiga até o limiar entre a consciência humana e a transcendência, até onde isso é possível e perceptível pelo sentido humano. E, a partir do enlevo inerente a essa literatura “espiritual” e epifânica, tanto de quem lê e especialmente de quem aprecia a literatura, o autor desvela as causas mais recônditas que fazem aquelas criações brotarem do interior dos autores.
Para sustentar suas teses, Weiskel aborda o que ele vai chamar então de Sublime Romântico, especialmente em sua expressão mais pura: a poesia. O autor analisa poemas de Wordsworth (de cuja poesia ele retira a expressão que dá o nome do livro), além de Coleridge, Wallace Stevens e William Blake, entre outros.
A investigação de Weiskel, entretanto, vai além. Passa também pela filosofia de Kant e Hegel, e dialoga de igual modo com Freud. Simples?
Não mesmo. De um total de 307 páginas, minha leitura anda aí pela página 90. Leio aos bocados, e garanto, não por acaso: haja notas e rabiscos (com lápis HB de ponta macia, sempre) nas margens do livro.
Isso porque cada parágrafo e cada poema analisado por Weiskel obriga a uma reflexão aprofundada. Suas frases exigem o pensamento detido e brota muita reflexão a partir delas. Em minha última leitura, por exemplo, quando ele analisa um poema de Wallace Stevens, eu me peguei refletindo acerca do livro de Ezequiel: de resto, o profeta com o maior número de visões misteriosas e fantásticas da Bíblia Sagrada.
As ponderações despertadas pelo Sublime Romântico são realmente complexas, muito imbricadas. Não ouso dizer que entendi uma mísera linha dali sem antes ter repetido a leitura de muitos trechos. A cada repetição, novas janelas vão-se abrindo, o que vai trazendo alusões e mais alusões, além de conclusões interessantíssimas. Espero estar realmente compreendendo o que leio.
O fato é que não dá para apenas fingir que se lê este livro, obra que tenho achado cativante. Quase literalmente cativante.
Ainda falarei mais dele, é provável. Por ora, posso afirmar: que sorte que pude descobri-lo.
Lembro agora que, sendo absolutamente brasileiro liquidificador, costumava ser gostado por meninas de olhos azuis na tenra juventude. Nas raras vezes em que isso ocorreu, é verdade: um total de duas.
É preciso ter em mente que as pessoas são movidas por seus próprios interesses circunstanciais. Se elas procuram por alguém e se recorrem a alguém, ainda que para celebrá-la, aquilo se dá exclusivamente porque isso lhes parece interessante de algum modo.
Não é pela pessoa buscada em si mesma que as pessoas se interessam. Nunca é.
Mas isso não faz das pessoas egoístas incuráveis, como pode parecer. Todos agimos assim naturalmente, sem cálculos a princípio. Trata-se portanto de atitude comum e normal, algo esperado e previsível. Não se trata, também, das famosas “segundas intenções”, outra coisa. O caso é que ninguém abre seu peito a outrem se não esperar algum benefício por isso; benefício talvez indireto e subjetivo, mas benefício assim mesmo.
Todos gostamos de pessoas especiais porque almejamos ser também especiais. É um mimetismo: encostamos na douradura dos ídolos porque queremos um pouco daquele brilho por nós percebido. Queremos estar “perto do ouro” porque queremos valer mais, também. Por estar perto do bem, algum bem haveremos de ter.
Por outro lado, há o falso desdém, que é o efeito contrário da busca indiretamente interessada. Mas este é assunto para outra hora.