11/09/2026

Independência

A independência cobra um preço alto. O preço cobrado pela independência consiste em implementar a convicção que a ensejou e da qual tantos duvidam (e até combatem). A independência é solitária, suspeita, evitada; mas tudo isso no início. Depois de estabelecida, porém, ela é como a copa de uma árvore frondosa, de tronco forte e bem enraizado: as aves gorjeiam por ali e constroem ninhos em seus ramos, em perfeita paz e segurança.

Vale a pena lutar pela independência até estabelecê-la na realidade concreta, até a promessa dar lugar à realização. Até lá, o caminho é arduo e pedregoso, mas, uma vez estabelecida, os frutos e todas as recompensas escorrem como o mel, naturalmente.

03/09/2026

Aviso aos navegantes: sobre Francisco Maia

Algumas pouquíssimas pessoas estavam a par de que eu publicaria o meu romance de estréia, Francisco Maia, pela Editora Danúbio, de Curitiba. Publicaria: de fato, o futuro do pretérito indica que a publicação não ocorrerá mais. Ao menos não daquela maneira divulgada pela editora e também por mim.

Contratado precisamente no último dia de janeiro de 2025, o original esperou pela publicação durante um ano e quase oito meses. Há poucos dias, recebi o comunicado de que ele não seria publicado mais nesse ano de 2026. A provável publicação foi empurrada para o primeiro semestre de 2027, e essa previsão de resto bastante incerta não me agradou. Mas antes, bem antes disso, o teor do meu livro também parece não ter agradado a editora, depois de terem mergulhado no teor da obra (explico-a abaixo).

Diante dessas divergências editoriais, optamos de comum acordo, eu e a editora, a editora e eu, pelo cancelamento da publicação.

*

Sabe, sou um homem simples. Não estou em grupinhos no WhatsApp, não sou o que se pode chamar de bem-relacionado. Se disserem que sou antipático, não sou, mas entendo que assim achem. De fato, não tenho “pares” para fofocar bastidores e maldizer, às gargalhadas, com toda a mordacidade. E nem quero: adoro essa minha condição solitária, adoro minha paz quem sabe misteriosa, adoro não precisar maldizer a ninguém. De resto, desde o início em que pus o ponto final em Francisco Maia, eu queria também diagramar meu próprio livro, elaborar a capa e fazer a produção gráfica dele. Fiquei louco? Não, não, calma: sou designer editorial desde fins do século passado. Sou profissional da área, e me desculpe, diria que dos bons. Passei por umas casas editoriais aqui e ali, dentre as quais a Coleções Folha, da sra. Folha de S. Paulo, entre os anos de 2018-23.

De modo que, com trinta anos de profissão nas costas e sempre servindo à sociedade neste ofício, quis ver o meu próprio livro com a minha cara “artística”, digamos assim. Claro, a partir do propósito reclamado pela obra e outras viabilidades correlatas. Porque, não sei se sabem, designer é basicamente um pau-mandado com qualificação técnica e, pfui, nível superior. É uma profissão basicamente prestadora de serviços destinada só a receber ordens. No mais das vezes e na maioria esmagadora das vezes, estúpidas ordens. O cliente é, em geral, tão burrinho quanto teimoso ou vice-versa. Mas a gente cala o defeito alheio e o fígado de aço vai agüentando, porque somos um tiquinho pagos para isso.

*

Bem, sem queixumes. Voltemos ao livro. Em tempo oportuno, meus dois ou três leitores interessados (o meu muitíssimo obrigado a vocês, fabulosos dois ou três!), serão inteirados a respeito dessa publicação — a qual será ainda melhor preparada, posso garantir.

Permite uma pretensão? Vai parecer isso, mas prefiro chamar de sonho:

Quero que meu livro, nesta edição a ser lançada, torne-se “cult”: um volume do qual os felizardos que o tiverem possam dizer aos netos, “é, eu vi quando esse cara estreou, ele mesmo fez essa edição aqui; esse livro é raríssimo”, tal.

Isto para o caso miraculoso de, tempos depois do lançamento, ele ser contratado por uma editora de porte e renome. Porque eu creio que a cada dia a loucura ativista se dilui nessas casas importantes, e a literatura voltará a brilhar por ali. Queira Deus.

*

Mas de que trata este Francisco Maia, afinal?

Antes, um aviso: é possível que o título mude um pouco. Não sei. Mas vamos lá: o livro é uma biografia ficcional desse personagem-título. Sua maior questão pessoal (todo grande personagem de ficção busca algo maior, certo?), bem, sua questão é realizar a sua vocação, sua missão de melhorar, influenciar, edificar desde dentro a sociedade em torno. Para isso, ele irá passar por árduo período de formação pessoal pelas mãos de um mestre renomado. Isso se passa entre os anos 1940-1960, em São Paulo. Depois, muitos anos depois, ele ressurge (como? leia!) e reaparece, de modo absolutamente improvável, no ano de 2011. Ele cai de paraquedas nas jornadas de 2013 (cujos efeitos se fazem sentir ainda hoje)!

No século 21, diante do choque dos costumes da sociedade em torno e da fragmentação das almas em geral, ele decide influenciar o rumo das coisas. É jogado nisso meio sem querer, um pouco como joguete de interesses suspeitos; e também por um pouco de reação e vingança pessoal, pois fizeram mal à sua família. Por fim, resta saber se ele conseguirá cumprir a sua missão de vida, e o que isso causará de efetivo nas pessoas em geral.

Com efeito, Francisco Maia (título não definitivo, repito), é um livro de média complexidade, diria. É um romance de personagens vívidos, muitos personagens, e estritamente narrativo. Não se trata de um livro com frases proverbiais ou edificantes ao imaginário (e essa foi uma das divergências editoriais acima citadas).

Se você já leu A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa, acho que gostará de Francisco Maia. Se você já leu Servidão Humana, de W. Somerset Maugham, acho que gostará de Francisco Maia. É um romance de algum fôlego para quem gosta de mergulhar em romances: se for o seu caso, o mergulho valerá a pena, eu garanto.

Em breve.


Trilha sonora:

27/08/2026

Renato Russo

Que vão à merda, em fila indiana e sem dar tchau, os criticastros de Renato Russo. Que se fodam, saltitantes e contentes, os que se acham especial por difamá-lo. São burros satisfeitos sem remédio.

Sim, e digo isso sereno, porque não há letra de Renato Russo que não cale uma realidade bem patente na existência do (outrora) jovem, e que agora, tiozão, está às voltas com os compromissos da pequeno-burguesia: filhos, mulher, trabalho, contas, o mundo sem sentido — e uma culturinha de escape que suporte isso tudo.

Vira e mexe lembro de alguns versos de Renato Russo, do nada. Há sentido até demais em versos como “não falo como você fala/ mas vejo bem o que você me diz.” Ou a incontornável “esse é o nosso mundo/ o que é demais nunca é o bastante/ e a primeira vez é sempre a última chance/ ninguém vê onde chegamos/ os assassinos estão livres/ nós não estamos”. Isso é pura verdade e pura poesia. Se não for, não quero saber de poesia.

Não lhe soa clássico o suficiente, ó Doutor Cuequinha? Tome sua cultura e enfie em bom lugar: Renato também mostrou que leu e foi lido, ao dar às massas São Paulo e Camões em Monte Castelo. “O amor é fogo que arde sem se ver/ é ferida que dói e não se sente/ é um contentamento descontente/ é dor que desatina sem doer”, para emendar com o paulino “ainda que eu falasse a língua dos homens/ e falasse a língua dos anjos/ sem amor/ eu nada seria”.

Os exemplos são inúmeros. Renato Russo foi o barroco extemporâneo, trovador e menestrel. Foi pop, sim, e os que se querem acima do pop — estando porém abaixo — inventam defeitos para não reconhecer-lhe as qualidades. Uns merdas, uns bostinhas. Fodam-se eles.

Renato disse com acerto “temos nosso próprio tempo”, e ele foi, sim, um grande do meu próprio tempo. E não foi “personagem”, foi “gente de verdade”.

É o que mais tem faltado, dentre tudo que falta nestes dias: artista de verdade e gente de verdade.


Trilha sonora:

25/08/2026

O livro mais difícil até aqui

Jamais tinha lido livro tão difícil, denso e profundo — e não vai aqui qualquer banalidade nesse “profundo” — do que O Sublime Romântico: Estudos sobre a Estrutura e Psicologia da Transcendência, do americano Thomas Weiskel, na tradução de Patrícia Flores da Cunha (Imago Editora, 1994). A edição original foi publicada em 1976.

De que trata o livro, em rapidíssimas palavras: da noção do Sublime a partir do Romantismo. O autor se debruça de maneira filosófica sobre o espírito e o “motor”, por assim dizer, da produção literária da época. O mais espantoso é que Weiskel investiga até o limiar entre a consciência humana e a transcendência, até onde isso é possível e perceptível pelo sentido humano. E, a partir do enlevo inerente a essa literatura “espiritual” e epifânica, tanto de quem lê e especialmente de quem aprecia a literatura, o autor desvela as causas mais recônditas que fazem aquelas criações brotarem do interior dos autores.

Para sustentar suas teses, Weiskel aborda o que ele vai chamar então de Sublime Romântico, especialmente em sua expressão mais pura: a poesia. O autor analisa poemas de Wordsworth (de cuja poesia ele retira a expressão que dá o nome do livro), além de Coleridge, Wallace Stevens e William Blake, entre outros.

A investigação de Weiskel, entretanto, vai além. Passa também pela filosofia de Kant e Hegel, e dialoga de igual modo com Freud. Simples?

Não mesmo. De um total de 307 páginas, minha leitura anda aí pela página 90. Leio aos bocados, e garanto, não por acaso: haja notas e rabiscos (com lápis HB de ponta macia, sempre) nas margens do livro.

Isso porque cada parágrafo e cada poema analisado por Weiskel obriga a uma reflexão aprofundada. Suas frases exigem o pensamento detido e brota muita reflexão a partir delas. Em minha última leitura, por exemplo, quando ele analisa um poema de Wallace Stevens, eu me peguei refletindo acerca do livro de Ezequiel: de resto, o profeta com o maior número de visões misteriosas e fantásticas da Bíblia Sagrada.

As ponderações despertadas pelo Sublime Romântico são realmente complexas, muito imbricadas. Não ouso dizer que entendi uma mísera linha dali sem antes ter repetido a leitura de muitos trechos. A cada repetição, novas janelas vão-se abrindo, o que vai trazendo alusões e mais alusões, além de conclusões interessantíssimas. Espero estar realmente compreendendo o que leio.

O fato é que não dá para apenas fingir que se lê este livro, obra que tenho achado cativante. Quase literalmente cativante.

Ainda falarei mais dele, é provável. Por ora, posso afirmar: que sorte que pude descobri-lo.

20/08/2026

Blue eyes

Lembro agora que, sendo absolutamente brasileiro liquidificador, costumava ser gostado por meninas de olhos azuis na tenra juventude. Nas raras vezes em que isso ocorreu, é verdade: um total de duas.

A douradura dos ídolos

É preciso ter em mente que as pessoas são movidas por seus próprios interesses circunstanciais. Se elas procuram por alguém e se recorrem a alguém, ainda que para celebrá-la, aquilo se dá exclusivamente porque isso lhes parece interessante de algum modo.

Não é pela pessoa buscada em si mesma que as pessoas se interessam. Nunca é.

Mas isso não faz das pessoas egoístas incuráveis, como pode parecer. Todos agimos assim naturalmente, sem cálculos a princípio. Trata-se portanto de atitude comum e normal, algo esperado e previsível. Não se trata, também, das famosas “segundas intenções”, outra coisa. O caso é que ninguém abre seu peito a outrem se não esperar algum benefício por isso; benefício talvez indireto e subjetivo, mas benefício assim mesmo.

Todos gostamos de pessoas especiais porque almejamos ser também especiais. É um mimetismo: encostamos na douradura dos ídolos porque queremos um pouco daquele brilho por nós percebido. Queremos estar “perto do ouro” porque queremos valer mais, também. Por estar perto do bem, algum bem haveremos de ter.

Por outro lado, há o falso desdém, que é o efeito contrário da busca indiretamente interessada. Mas este é assunto para outra hora.

Pecador

Reconhecer-se pecador é fácil. Difícil é assumir um único erro.

Coisa de criança

Suponhamos, se a mãe falar ao filho de seis anos: “coma banana, meu filho; banana faz bem”, e no dia seguinte o filho falar à mãe, “coma banana, mamãe; banana faz bem”, ambos não dizem a mesma coisa.

Estão falando, sim, mas não dizendo a mesma coisa.

Com toda a evidência, a mãe diz a frase porque ela sabe, com base em seu aprendizado e experiência de vida, e sob conhecimentos nutricionais ainda que superficiais, que comer banana faz bem ao organismo. Isto significa que o que ela transmite ao filho tem um peso que ultrapassa as meras palavras, os sons da fala. Logo, aquilo tem autoridade: o saber, a experiência, o conhecimento efetivo da mãe, ainda que num nível mínimo, ultrapassa essa mesma capacidade no filho.

Já quando o menino de seis anos fala à mãe a mesmíssima frase, isso se baseia primeiro na repetição dos sons escutados, e depois na entonação aprendida à própria mãe. Nada mais que isso.

No entanto, é óbvio que o menino não sabe, não tem a posse do conhecimento nutricional, ainda que empírico, que a mãe tem. O garotinho não faz qualquer idéia dos benefícios da ingestão de bananas. Mas ele é capaz de falar a frase em si, pode repetir aquele som organizado. No máximo ele sabe que a fala memorizada refere-se a uma fruta de nome banana que ele já conhece. Mas o teor da mensagem é vazio, um som emitido por mera imitação.

Quando alguém afirma ou nega algo, é preciso medir e considerar de alguma maneira o peso, a substância daquela mensagem no emissor. Que peso tem aquelas palavras? Aquela pessoa sabe minimamente o que está dizendo? Ou apenas repete porque ouviu de alguém que ouviu de alguém e mais alguém, indefinidamente?

Em geral, as opiniões são assim. A pessoa ouviu e repassou como se fosse sua qualquer coisa que lhe caiu aos ouvidos, sabe-se lá de onde. Isso se dá especialmente quando a pessoa reage a algo que chega agora ao seu conhecimento e se sente imediatamente contrariada (o que acontece muito em comentários de rede social): ela desconhece o trajeto mental e/ou referencial do emissor (se é que há; seria a mãe do exemplo acima), e sente um desconforto, algum incômodo no consenso assentado até ali. Daí, reage, repetindo jargões e cacoetes, por puro gatilho mental.

Isso, entretanto, não é pensar. É rebater uma proposição com base em frases aprendidas, sentenças soltas, sem repertório adequado nem reflexão por tempo suficiente.

Discordar de um argumento implica em ter argumentos melhores, mais acertados e embasados, o que sem dúvida dá um certo trabalho. Já slogans e sarcasmos e cacoetes conferem sentimentos convenientes e protetivos, além de restabelecerem no devido cantinho do cérebro o “pensamento-pensado” recebido de terceiros.

Todos temos essa espécie de baú mental de opiniões instantâneas, defesas prontas contra certas “provocações”, mas que não consistem num argumento genuíno. É o filho repetindo a frase da banana sem saber o mínimo do que ela significa de fato.

Coisa de criança, portanto.


Trilha sonora:

Não se dar importância

Muito difícil o exercício interior de não se dar tanta importância e não se deixar acanalhar sob esse pretexto.

17/08/2026

Normalidade

A normalidade é um luxo. Sua ocorrência é rara como os diamantes.

13/08/2026

A “utilidade” do romance

Complicado falar em função do romance: dar um sentido utilitário ou instrumental a um trabalho artístico é sempre muito arriscado.

De modo que se alguém disser “não leio romances porque eles não têm utilidade”, não estará 100% errado. O ponto, aqui, é que o foco, o eixo de compreensão está deslocado: ir ao romance para buscar utilidades imediatas é que está errado. Seria algo como ir ao restaurante em busca de nutrientes e não de experimentar uma boa refeição: “a comida aqui tem vitaminas e sais minerais, chef?”

Entende?

O (bom) romance é a boa refeição em matéria de leitura: decerto haverá muitos “nutrientes literários” ali, mas eles não estão sintetizados como numa cápsula. Estão sutis, incorporados, e seus benefícios não aparecem de imediato.

Ler romances faz diferença a longo prazo, mas de um modo interior e, portanto, subjetivo. Todas as outras leituras (as instrumentais, inclusive) melhoram por tabela quando combinadas com a leitura freqüente de bons romances.

Mas é possível apontar benefícios mais diretos, sim. O ritmo do texto do romance melhora a atenção e a concentração; a leitura de romances possibilita uma “visualização” do texto lido, e portanto, torna a experiência de leitura mais viva; além disso, amplia a empatia, a compreensão ao próximo; alarga nosso próprio horizonte de possibilidades, esmiuça preconceitos bobos e fáceis, questiona nossos próprios hábitos arraigados e atávicos, etc. etc. etc.

Então, não é que o romance não tenha utilidade. Ele tem tanta utilidade que não dá para listar todos de uma vez. É ler para saber.

Somos um número

Queremos e simulamos a singularidade, mas não passamos de um número. Sim, para o Grande Sistema, eu, tu, ele, todos nós somos uma senha, um código, uma combinação de signos que as burocracias diversas nos atribuem.

É duro para nós mesmos admitir que somos mais um. O mesmo sistema burguês que nos atribui senhas, números e códigos, é o mesmo que vende motivações convenientes para nos iludir a respeito de uma pretensa exclusividade para que continuemos a trabalhar, a consumir e a funcionar como bons cidadãos.

Mesmo os ricos e bem remediados. Uma vez na fila do aeroporto, a madame ou o doutor é cadastrado, etiquetado, tornado anônimo: passageiro número tal. Talvez com lugar vip na salinha do cartão de crédito black, talvez com direito a suquinho e ar-condicionado. Não deixa de ser algo ridículo: a única compensação do doutor e da madame é que os outros, aqueles ali fora, não podem estar aqui dentro. E esse é todo o prêmio disponível.

Corta para Pindorama. Aqui, nossa maravilhosa e fascinante não-sei-pra-quem democracia nos convoca a “votar” num daqueles escroques com que ela nos presenteia a cada biênio. Dali a pouco estaremos lá, levados pelo mais desprezível poder estatal, e apresentaremos um número de documento e colocaremos a digital num leitor que apontará para aquele mesmo número, e aí “votaremos” em números outros, o número dos escroques.

A maravilhosa e fascinante não-sei-pra-quem democracia tenta nos convencer que o que ali fazemos é importante. O que ela não diz é que, conosco ou sem nosco, ela continuará mandando do jeito que quiser, impondo-se da forma que quiser, e os escroques da maquininha, aqueles votados, continuarão roubando, matando e destruindo. Feito o diabo.

Para o Grande Sistema, nossa existência é apenas tolerada, sob a contrapartida da sujeição compulsória. O lance é não dar muito na vista. O fato é que nossos nomes, o endereço de cada um, toda nossa existência é registrada como código de cadastro num banco de dados. E essa atribuição alfanumérica só aumenta e aumenta ad infinitum, e a cada novo código atribuído somos mais controlados e somos menos gente perante o Grande Sistema.

Agora imagine o homem da Idade Média, o mais humilde camponês daquela época. Ele, sim, podia dizer “sou alguém”: tinha um Nome e um Sobrenome que identificavam respectivamente seu batismo e seu ofício. A carteira de identidade do camponês da Idade Média era o rosto, o caráter, a honradez, o bom nome da família. Ele, sim, era um indivíduo na acepção da palavra.

Não sem razão disseram os frankfurtianos que, na tal sociedade burguesa, não pode existir o indivíduo, isto é, o conceito acabado de indivíduo. Nessa eles acertaram como a burra de Balaão, pois, para o Grande Sistema, não há possibilidade de existirmos como pessoa triúna, corpo, alma e espírito. Há apenas criaturas classificadas sob a mão pesada da burocracia.

De modo que, para esse arauto do Anticristo chamado Grande Sistema, ninguém é nada além de um número. Quem sabe um brioso, altaneiro e diferenciado número em relação a outro número; mas, ainda assim, na mesma fila massificada. Próxima senha!


Trilha sonora:

11/08/2026

Ficção de homem, ficção de mulher

Um exercício joyceano

Homem:

1. Simples assim: torto, cafajeste, no fundo do bem. Feio pra diabo. Beber e fumar, às vezes jogar. Falar palavrão, sem viadagem, gostar de gostosa. Mulher é feia ou gostosa, tesuda ou não tesuda. Nem nome tem; se tiver, é de guerra: Jussara, Paloma, Paulinha adolescente. Mulher: carne: comer ou jogar fora, ela não sente, não pensa. Mas fala e enche o saco, porra, me deixa em paz, tô “fudido” o suficiente; quer rola? Cafajeste que faz literatura na sarjeta. So-bre-vi-ven-te. Mal pisou em escola mas escreve: sensibilidade escondida (é enrustido?). Não, literatura “real”: verdade na lata e na cara, sem frescura, zero baitola. Manda a letra e mira a gostosa, enquanto fuma, enquanto bebe. Ou vice-versa.

2. Cara engraçado! Tá nem aí, homem nunca tá nem aí. Calmo: normal, gente da gente; en-gra-ça-do. Piada de tudo, a vida é gozada. Pô, (ele diz), pô, a vida não pode ser levada a sério. Tudo gozação, a vida é curta; quem não pensa assim, finge (simples assim). Cara-normal-que-goza-de-tudo, mais ainda do próprio fracasso. Descolar uma graninha no trabalho; pagar conta; sofrer contrariedades: fechada no trânsito, queixa de mulher. O buraco é mais embaixo. Valorizar o esculachado. Gostar de anti-herói. Beber no fim de semana. Assar uma carninha. Ah, antes foi melhor, mundo tá chato! Tipo: piada de preto. Que é que tem? Direita: polícia na rua, vagabundo na cadeia, melhor coisa do mundo. Não pagou a grana emprestada: roubo não, é diferente. Fezinha na lotérica. Feijoada no botequim. Domingo, futebol. Coisa de homem, pô: viver é isso. Humor-tiozão tempera a existência. Homem. Simples assim.

*  *  *

Mulher:

1. Primeira pessoa: EU! Minha cabeça, um caos, liquidificador. Ninguém me entende, nem eu me entendo: “uma dor sem nome”. A vida em função do que homem acha e de superar o que homem acha. Tem um homem olhando, outro falando de mim, outro me ignora. Xingar homem. Desprezar homem. Eles existem, eu sofro. Defesas: o recurso da ironia; o recurso do sarcasmo; o recurso da diminuição de importância. (Preciso transar. Preciso.) Eu me defino, ouviram? Eu supero, nem vem, não vou ser como querem que eu seja. Eu não ligo! (Mas por que homem é assim? – não paro de pensar.) A solidariedade coletiva: “nós, mulheres”. De esquerda: ele não! Corta pra realidade: aquela vaca!

2. Alguém doente. Sempre alguém doente. Cenário: hospital. Cenário: restaurante. Cenário: aeroporto. Cenário: apartamento. Coitada da minha mãe. Coitada da minha vó. Mulher sofre, mas eu não vou sofrer. Viagem ao redor do meu umbigo. Tudo parte de mim, tudo converge a mim. Coisa idiota, desimportante se homem acha importante. Cenário: consultório. Cenário: laboratório. Sou inteligente. Falo mal mesmo. (Dor sem nome.) Uma falta, uma ausência: chorei. Esqueci. Lembrei. Hoje acordei bem. Hoje acordei mal. Um passeio: algo acontece? Nada acontece. Só um passeio — e falar, bom falar. Adoro amigas. Eu sendo eu! Deprimir. Superar. O mundo me deve: tenho direito! Causa política, causa ética — porque eu penso. Problema de saúde. Xixi e cocô, dane-se, não sou princesa! Fim igual começo, começo igual fim, tudo igual. Minha cabeça, um caos, liquidificador. Primeira pessoa: EU!


Trilha sonora:

O fim é o meio

Sem oficialidade, não há efetividade; sem efetividade, não há oficialidade.

10/08/2026

Separar o autor de sua obra? Mais ou menos

Do que trato aqui, nada posso falar a respeito dos escritores de antigamente ou falecidos há pouco tempo. Todavia (meio fresco usar todavia), todavia, quanto aos escritores atuais e em plena atividade, os ditos contemporâneos, eu vejo sim cara e coração antes de ler.

É, admito o julgamento quem sabe temerário. Também não digo que eu esteja certo. Admito ainda que, prestes a me tornar um dos tais contemporâneos (publico logo mais minha tentativa de romance), eu mesmo poderei ser julgado pelo meu próprio critério.

Paciência, é do jogo. Não por acaso Nosso Senhor disse “com a medida com que tiveres medido, vos medirão também.” Por isso, o Cristo aconselhou a não julgar: dentre os muitos mistérios celestiais da sentença, um motivo era advertir para que não sucumbíssemos ante nosso próprio julgamento.

Mas enfim, é só literatura. Disse que vejo cara e coração do escritor, especialmente porque os meios digitais possibilitam isso. Antes, tínhamos as entrevistas nos jornais. Agora, por áudio e vídeo, é possível ver, ou na gíria, sacar o caboclo que se arvora a escrever. Sabe como é, estudar o cara. Então, para que eu o leia, preciso notar ali, sob esse meu exclusivo escrutínio, que vai ali um autor na acepção do termo.

Não leve a mal, já sofri um bocado por aparências enganosas, ainda mais nesse Brasil de tanto simulacro sem substância. A sociedade brasileira é movida pela imitação e por essa incômoda raspagem das superfícies. Ninguém aqui se preocupa em ser tanto quanto em parecer. Aliás, aqui o parecer é um atalho sempre à mão para objetivos mais imediatos. Ninguém tem paciência de ir aos pouquinhos. É de imediatos que o brasileiro comumente formado vive. Ninguém aqui aprecia muito o preparar-se, o planejar-se: entram pelos telhados e puf!, surgem na ribalta, põem a cara aos holofotes. Depois, surgem os tapinhas nas costas e os encontros bacanas. Assim, prático e rápido.

Sou meio cafona vai ver, mas creio numa certa reclusão do escritor, e também numa certa esquisitice em suas maneiras, aliás, coisa típica de quem realmente tem personalidade. Personalidade muito confundida no Brasil com exagero forçado, maneiras estudadas, todo um cálculo prévio dos trejeitos para causar sensação. De novo, tudo não passa da velha superficialidade, raspagem, aparência.

Não, não: o escritor verdadeiro será mais ou menos esquisito, mais ou menos deslocado, mais ou menos desajeitado para as recepções. E será tudo isso de modo espontâneo, e se incomodará em não fazer bom papel em meio às solenidades inescapáveis. Por isso, ele se afastará ao máximo da publicidade de sua própria figura.

De modo que eu preciso perceber tudo isso num autor: personalidade, espontaneidade criativa, idiossincrasia autêntica; tudo dialogando com alguma sabedoria de fundo. Quem se mostra assim, decerto terá algo a dizer. Vamos a seu livro.

Por outro lado, o sujeito que pariu um livrinho e sai logo a receber afagos; e, sobretudo, se coloca como “facilmente digerível” à opinião média, inclusive de quem lê nada, e que vive todo prosa, como se dizia antigamente; este eu aposto que não escreveu algo de valor. Marcou um tento, engordou o currículo; agora, busca aceitação e legitimidade.

Separar obra de autor, diz o conselho. Em parte está certo: separe-se contradições e idiossincrasias (insisto na palavra) do autor de sua obra pronta. Talvez nem precise: tais desvios servirão de tempero à refeição literária que o escritor preparou. Já pose e cabotinismo não tem quem me convença: se o escritor não me desce, o que ele escreveu — vá desculpar —, ainda menos.


Trilha sonora:

07/08/2026

Livro não vende, mas vende

Procuro pelas belas edições da obra de Cyro dos Anjos, publicadas pela Editora Globo, em 2006. Com muita sorte consegui o Abdias e o Amanuense Belmiro, mas faltam-me os demais títulos da obra do escritor mineiro, um de meus preferidos no território pindorâmico, e não os encontro.

Refiro-me a exemplares novinhos, da própria Globo. Antigo tem de monte. Quero os da coleção, pois, justiça seja feita, as reedições foram feitas com esmero, coisa que todo grande autor merece ter. Não são aqueles livretes de lista obrigatória de vestibular, pensados para ser baratinhos, em geral com diagramação sofrível e papel branco-quase-transparente.

Mas devo o ponto deste textinho. O ponto é que ‘cabou-se, ninguém acha mais as edições do Cyro pela Globo. Esgotou, sumiu.

Como esgotou, se livro não vende? — é de se perguntar. A única explicação possível há de ser esta: a de que livro não vende, mas livro vende, sim.

06/08/2026

A volta, ou: falar sozinho

Pode parecer arrogância à primeira vista, mas descobri que preciso falar sozinho.

Na verdade, escrever é sempre um falar sozinho. Ocorre que a internet – sobretudo as redes sociais – é que nos acostumaram por décadas a imaginar que, abre aspas, dialogamos, fecha aspas, com alguém ou com a praça pública.

Não, nunca dialogamos ali. A rigor, não.

Se eu mesmo colocasse na balança tudo o que já disse em rede social ao longo desses anos, em que pese ter passado por várias fases mentais durante o período, não saberia precisar o volume de texto despejado ali, nem de que categoria, se boa ou ruim.

Claro, sejamos justos, muita (muita? exagero aqui), mas um número razoável de gente boa conheci ali, nas redes. Portanto, nenhuma crítica a elas em específico. Fiz alguns amigos e amigas, e do melhor modo, qual seja, por afinidade e confluência de interesses.

Mas eu precisava falar sozinho. Por isso ensaio essa volta tímida ao blog. Eu precisava do silêncio, do espaço e da sorte de ser encontrado por quem quer ler de verdade o que escrevo e se interessa pelo que tenho a dizer. O que é um privilégio para mim. Aqui, no blog, sinto-me livre para usar a primeira pessoa em tom intimista e confessional, sem parecer tão autorreferente nem ávido pelo aplauso.

De resto, o blog é como o livro. Claro, o meio é outro, eletrônico, digital; mas o princípio é bem parecido ao livro: lemos o que o autor pôs ali, e aquilo nos dá o que pensar. Por essa singela atitude, nossa compreensão vai se ampliando, nossos horizontes se alargam. E o melhor: sem caixinhas de comentários. O livro que nos fala é surdo e não comporta “interações”.

Claro, o blog não é tão rígido como o livro; pode-se comentar aqui e enviar um alô ao autor (mande um alô, se quiser; comente!). Porém, este ambiente mais privativo inspira um respeito maior, uma consideração diferente, um cuidado que na impessoalidade quicante das redes sociais simplesmente não acontece.

Como pretendente a escritor, eu poderia me oficializar mais, buscar contatos, virar instituição. Mas escritor não é monumento. Se assim fazem dele, é outra coisa. Na prática, escritor é o que escreve, em qualquer ocasião, se houver o que escrever.

Por isso volto ao blog — como dantes, muito dantes. Estou feliz por este retorno. De sorte que vou aos pouquinhos, e espero que tudo corra bem.


Trilha sonora: