27/08/2026

Renato Russo

Que vão à merda, em fila indiana e sem dar tchau, os criticastros de Renato Russo. Que se fodam, saltitantes e contentes, os que se acham especial por difamá-lo. São burros satisfeitos sem remédio.

Sim, e digo isso sereno, porque não há letra de Renato Russo que não cale uma realidade bem patente na existência do (outrora) jovem, e que agora, tiozão, está às voltas com os compromissos da pequeno-burguesia: filhos, mulher, trabalho, contas, o mundo sem sentido — e uma culturinha de escape que suporte isso tudo.

Vira e mexe lembro de alguns versos de Renato Russo, do nada. Há sentido até demais em versos como “não falo como você fala/ mas vejo bem o que você me diz.” Ou a incontornável “esse é o nosso mundo/ o que é demais nunca é o bastante/ e a primeira vez é sempre a última chance/ ninguém vê onde chegamos/ os assassinos estão livres/ nós não estamos”. Isso é pura verdade e pura poesia. Se não for, não quero saber de poesia.

Não lhe soa clássico o suficiente, ó Doutor Cuequinha? Tome sua cultura e enfie em bom lugar: Renato também mostrou que leu e foi lido, ao dar às massas São Paulo e Camões em Monte Castelo. “O amor é fogo que arde sem se ver/ é ferida que dói e não se sente/ é um contentamento descontente/ é dor que desatina sem doer”, para emendar com o paulino “ainda que eu falasse a língua dos homens/ e falasse a língua dos anjos/ sem amor/ eu nada seria”.

Os exemplos são inúmeros. Renato Russo foi o barroco extemporâneo, trovador e menestrel. Foi pop, sim, e os que se querem acima do pop — estando porém abaixo — inventam defeitos para não reconhecer-lhe as qualidades. Uns merdas, uns bostinhas. Fodam-se eles.

Renato disse com acerto “temos nosso próprio tempo”, e ele foi, sim, um grande do meu próprio tempo. E não foi “personagem”, foi “gente de verdade”.

É o que mais tem faltado, dentre tudo que falta nestes dias: artista de verdade e gente de verdade.


Trilha sonora:

25/08/2026

O livro mais difícil até aqui

Jamais tinha lido livro tão difícil, denso e profundo — e não vai aqui qualquer banalidade nesse “profundo” — do que O Sublime Romântico: Estudos sobre a Estrutura e Psicologia da Transcendência, do americano Thomas Weiskel, na tradução de Patrícia Flores da Cunha (Imago Editora, 1994). A edição original foi publicada em 1976.

De que trata o livro, em rapidíssimas palavras: da noção do Sublime a partir do Romantismo. O autor se debruça de maneira filosófica sobre o espírito e o “motor”, por assim dizer, da produção literária da época. O mais espantoso é que Weiskel investiga até o limiar entre a consciência humana e a transcendência, até onde isso é possível e perceptível pelo sentido humano. E, a partir do enlevo inerente a essa literatura “espiritual” e epifânica, tanto de quem lê e especialmente de quem aprecia a literatura, o autor desvela as causas mais recônditas que fazem aquelas criações brotarem do interior dos autores.

Para sustentar suas teses, Weiskel aborda o que ele vai chamar então de Sublime Romântico, especialmente em sua expressão mais pura: a poesia. O autor analisa poemas de Wordsworth (de cuja poesia ele retira a expressão que dá o nome do livro), além de Coleridge, Wallace Stevens e William Blake, entre outros.

A investigação de Weiskel, entretanto, vai além. Passa também pela filosofia de Kant e Hegel, e dialoga de igual modo com Freud. Simples?

Não mesmo. De um total de 307 páginas, minha leitura anda aí pela página 90. Leio aos bocados, e garanto, não por acaso: haja notas e rabiscos (com lápis HB de ponta macia, sempre) nas margens do livro.

Isso porque cada parágrafo e cada poema analisado por Weiskel obriga a uma reflexão aprofundada. Suas frases exigem o pensamento detido e brota muita reflexão a partir delas. Em minha última leitura, por exemplo, quando ele analisa um poema de Wallace Stevens, eu me peguei refletindo acerca do livro de Ezequiel: de resto, o profeta com o maior número de visões misteriosas e fantásticas da Bíblia Sagrada.

As ponderações despertadas pelo Sublime Romântico são realmente complexas, muito imbricadas. Não ouso dizer que entendi uma mísera linha dali sem antes ter repetido a leitura de muitos trechos. A cada repetição, novas janelas vão-se abrindo, o que vai trazendo alusões e mais alusões, além de conclusões interessantíssimas. Espero estar realmente compreendendo o que leio.

O fato é que não dá para apenas fingir que se lê este livro, obra que tenho achado cativante. Quase literalmente cativante.

Ainda falarei mais dele, é provável. Por ora, posso afirmar: que sorte que pude descobri-lo.

20/08/2026

Blue eyes

Lembro agora que, sendo absolutamente brasileiro liquidificador, costumava ser gostado por meninas de olhos azuis na tenra juventude. Nas raras vezes em que isso ocorreu, é verdade: um total de duas.

A douradura dos ídolos

É preciso ter em mente que as pessoas são movidas por seus próprios interesses circunstanciais. Se elas procuram por alguém e se recorrem a alguém, ainda que para celebrá-la, aquilo se dá exclusivamente porque isso lhes parece interessante de algum modo.

Não é pela pessoa buscada em si mesma que as pessoas se interessam. Nunca é.

Mas isso não faz das pessoas egoístas incuráveis, como pode parecer. Todos agimos assim naturalmente, sem cálculos a princípio. Trata-se portanto de atitude comum e normal, algo esperado e previsível. Não se trata, também, das famosas “segundas intenções”, outra coisa. O caso é que ninguém abre seu peito a outrem se não esperar algum benefício por isso; benefício talvez indireto e subjetivo, mas benefício assim mesmo.

Todos gostamos de pessoas especiais porque almejamos ser também especiais. É um mimetismo: encostamos na douradura dos ídolos porque queremos um pouco daquele brilho por nós percebido. Queremos estar “perto do ouro” porque queremos valer mais, também. Por estar perto do bem, algum bem haveremos de ter.

Por outro lado, há o falso desdém, que é o efeito contrário da busca indiretamente interessada. Mas este é assunto para outra hora.

Pecador

Reconhecer-se pecador é fácil. Difícil é assumir um único erro.

Coisa de criança

Suponhamos, se a mãe falar ao filho de seis anos: “coma banana, meu filho; banana faz bem”, e no dia seguinte o filho falar à mãe, “coma banana, mamãe; banana faz bem”, ambos não dizem a mesma coisa.

Estão falando, sim, mas não dizendo a mesma coisa.

Com toda a evidência, a mãe diz a frase porque ela sabe, com base em seu aprendizado e experiência de vida, e sob conhecimentos nutricionais ainda que superficiais, que comer banana faz bem ao organismo. Isto significa que o que ela transmite ao filho tem um peso que ultrapassa as meras palavras, os sons da fala. Logo, aquilo tem autoridade: o saber, a experiência, o conhecimento efetivo da mãe, ainda que num nível mínimo, ultrapassa essa mesma capacidade no filho.

Já quando o menino de seis anos fala à mãe a mesmíssima frase, isso se baseia primeiro na repetição dos sons escutados, e depois na entonação aprendida à própria mãe. Nada mais que isso.

No entanto, é óbvio que o menino não sabe, não tem a posse do conhecimento nutricional, ainda que empírico, que a mãe tem. O garotinho não faz qualquer idéia dos benefícios da ingestão de bananas. Mas ele é capaz de falar a frase em si, pode repetir aquele som organizado. No máximo ele sabe que a fala memorizada refere-se a uma fruta de nome banana que ele já conhece. Mas o teor da mensagem é vazio, um som emitido por mera imitação.

Quando alguém afirma ou nega algo, é preciso medir e considerar de alguma maneira o peso, a substância daquela mensagem no emissor. Que peso tem aquelas palavras? Aquela pessoa sabe minimamente o que está dizendo? Ou apenas repete porque ouviu de alguém que ouviu de alguém e mais alguém, indefinidamente?

Em geral, as opiniões são assim. A pessoa ouviu e repassou como se fosse sua qualquer coisa que lhe caiu aos ouvidos, sabe-se lá de onde. Isso se dá especialmente quando a pessoa reage a algo que chega agora ao seu conhecimento e se sente imediatamente contrariada (o que acontece muito em comentários de rede social): ela desconhece o trajeto mental e/ou referencial do emissor (se é que há; seria a mãe do exemplo acima), e sente um desconforto, algum incômodo no consenso assentado até ali. Daí, reage, repetindo jargões e cacoetes, por puro gatilho mental.

Isso, entretanto, não é pensar. É rebater uma proposição com base em frases aprendidas, sentenças soltas, sem repertório adequado nem reflexão por tempo suficiente.

Discordar de um argumento implica em ter argumentos melhores, mais acertados e embasados, o que sem dúvida dá um certo trabalho. Já slogans e sarcasmos e cacoetes conferem sentimentos convenientes e protetivos, além de restabelecerem no devido cantinho do cérebro o “pensamento-pensado” recebido de terceiros.

Todos temos essa espécie de baú mental de opiniões instantâneas, defesas prontas contra certas “provocações”, mas que não consistem num argumento genuíno. É o filho repetindo a frase da banana sem saber o mínimo do que ela significa de fato.

Coisa de criança, portanto.


Trilha sonora:

Não se dar importância

Muito difícil o exercício interior de não se dar tanta importância e não se deixar acanalhar sob esse pretexto.